terça-feira, 25 de novembro de 2025

Tentativa #23 - Música às quatro e meia

"Ó Sofia
Só vez a luz do dia
No reflexo esbatido nos filmes
Da Tv
."

Mendes e João Só


Estava no caminho para casa com a minha filha mais velha, que já é super crescida e já vai no lugar do passageiro e é a DJ oficial da carrinha escolar que conduzo semana sim, semana não, eis senão quando decide colocar os Quatro e Meia a tocar.

Essa banda diz-nos muito. Fez parte da banda sonora na longínqua época pandémica e há músicas muito giras tipo "Minha Mãe Está Sempre Certa" que faço questão que façam parte do repertório musical que a minha criança oiça (vá-se lá entender porquê...).

Bem, várias músicas passaram, várias foram berradas por ambas na tentativa de acertar em alguma nota (ou não), e, de repente, comecei a prestar mais atenção a uma música em particular.

A música em questão tem uma melodia animada, faz dançar e tal, é do João Só com os Quatro e Meia e tem por título "Sofia por Ela Própria".

Então...Digo-vos uma coisa, se esta música não é o quadro perfeito de depressão, isolamento social e fobia social, então não sei o que será.

Mas gostei tanto da letra da música e do antagonismo entre a letra e a melodia, que não consegui não vir aqui deixar esta Tentativa (que já muita saudade, mas pouca inspiração, tinha de as fazer, mas será tema para outra Tentativa).

Ora, como disse, a melodia é super animada, a letra...Boooomm, eu vou colocar a música no post do Insta para que possam ouvir o refrão, mas aconselhava ouvirem a música (não para discutir a qualidade da mesma, que gostos não se discutem, mas para verem esta discrepância e depressão contida na música). 

A letra fez-me pensar muito

O descrito na sobejamente referida letra é nada mais nada menos do que a vida de uma pessoa, a Sofia, que mora sozinha, que se isola ao ponto de não ver a luz do dia diretamente, mas através do reflexo da sua televisão, que tem como contactos sociais somente os parcos alunos que frequentam as explicações que a mesma dá de português e de latim (mas só para sobreviver, porque nem isso lhe traz qualquer tipo de prazer), o seu gato Félix e os espíritos do além, com os que falava utilizando a mesa de pé de galo que tem em casa.

A música parece dar a entender que a Sofia é já uma pessoa antiga, e que houve uma Era na sua vida em que era uma pessoa minimamente social, mas que na verdade nunca foi feliz. A música refere uma fotografia em que ela finge sorrir mas em que os seus olhos "choravam para dentro um lamento sem fim" e outra em que será uma fotografia de grupo em que já não resta ninguém, só ela. E então ela decidiu não mais sair de casa. Não queria nada do mundo. Criou o seu próprio mundo na sua casa e isso servia-lhe. Bastava-lhe. Não queria mais. Quanto a isto uma quadra na música de cortar a alma: "Com a sua fobia / De grandes multidões/ Sem sair de casa/ Vivia a fugir". 

Termina a música dizendo que, ela estava tão isolada e sozinha que até escreveu o seu próprio obituário, que foi publicado...E mais, só aquando da publicação do seu texto (do qual muito orgulho tinha a Sofia, tendo-lhe dedicado imenso tempo), ou seja, só quando a Sofia fez parte da necrologia de um jornal é que começou a receber telefonemas, no seu telefone analógico que antes disso teimava em não tocar.

Mais do mesmo, não é? Toda a gente vira Santo assim que morre. Neste caso até pareciam nem acreditar, porque parecem telefonar para confirmar se aquilo era mesmo verdade, senão quem iria atender? O gato Félix ou os espíritos, de cujo grupo ela já fazia parte - afinal sempre acabou por pertencer a um grupo, ironia....

Bem, nisto tudo, fica o gatinho Félix sem ninguém com quem falar e os alunos sem explicações de português e de latim, dadas por esta pessoa que sofria em silêncio e sozinha e de quem ninguém parecia querer saber.

Esta música tocou aqui num ponto qualquer nesta cabeça. 

Estou há três dias a pensar nela. 

É porque já viram? A sociedade está a tornar-se num lixo tal, que se torna mais fácil o isolamento provocado e voluntário, e o sofrimento associado a essa situação, do que ter que conviver com outras pessoas. 

Quando as desilusões são tantas. Quando a luta não traz resultados. Quando não encontramos ninguém com quem nos possamos abrir e expressar o que nos vai dentro sem sentir que estamos a ser constantemente criticados. Quando é preferível falar com um gato e com espíritos do além porque são os que nos conseguem ouvir sem julgamentos (pelo menos que consigamos perceber). Quando chegamos a este ponto e só o estarmos no fundo do poço, sozinhos, sem ter que lidar com os outros é que nos sentimos minimamente em paz, é de fazer pensar.

A Sofia, como tantos outros casos, tinha medo da própria vida, tinha fobia de ter que se dar com os outros, não porque perdeu uns parafusos...Mas porque muito provavelmente lhe arrancaram esses parafusos e agora pouco ou nada há a fazer...A paz para ela era o isolamento. Aí ninguém a podia magoar, porque não havia ninguém para o fazer, porque ela não deixava. Era a forma que tinha de se proteger. 

Quantas e quantas pessoas não estão atualmente nesta posição. Quantas e quantas não irão assim, sem saber o que é ser feliz, o que é ser amado, o que é ser cuidado. 

É lixado pensar nestas coisas, sobretudo quando sabemos que a depressão está sempre aí à espreita e que bem sabemos o quão quentinha e confortável ela pode ser. É preciso muita força de dentro e de fora para podermos sair dessa manta quentinha e confortável que são a depressão e o isolamento.

Devíamos ser mais bondosos uns com os outros. E mais do que isso, mais atentos e empáticos. 

Todos merecem sentir-se amados e bem com o que são pelo menos uma vez na vida. Devíamos olhar mais para as partes boas das pessoas e tentar fazê-las destacar, do que atacar e fazer relevar as partes mais chatas e escuras, que todos sabemos que temos e que todos sabemos que ganham cada vez mais forças quantas mais forem as vezes que elas são realçadas.

Eu sei que sou muito mi-mi-mi com estas coisas, mas é que me faz uma tremenda impressão pensar nestes casos.

 Às vezes basta uma pessoa ter um bocadinho mais de paciência com pessoas mais chatinhas, isoladas, com hobbies meio estranhos, mesmo que seja um pouco forçado de início, para evitar uma vida de tristeza e de não viver. Aliás, pior, uma vida de não viver e de viver a fugir. A fugir das pessoas, das críticas, das desilusões, das frustrações...

O homem é um animal social, mas estas coisas fazem-me pensar: será que hoje em dia para sobreviver é mais importante pertencer à comunidade ou proteger-se do que essa comunidade nos faz?

Bem, fica aqui o pensamento dos últimos dias.

Eu sei, eu sei, tanto tempo sem dizer nada e depois é isto. Mas pronto, é o que temos hoje. Tinha que vir cá falar disto. Para a próxima talvez já volte mais palhacinha, com "bandeira verde" como diz o Bruno Nogueira no "isso não se diz", ou não, logo se vê.

Tinha saudades vossas.

Da Vossa Criatura-Mais-Velha!

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